quinta-feira, 11 de junho de 2015

BAHIA

Com mais armas que a polícia, bandos tocam o terror no interior

Já são mais de cem ataques a bancos no ano, na Bahia. A maioria é protagonizada por bandos que chegam fortemente armados, atiram a esmo, fazem reféns e usam explosivos. A polícia, com pouco efetivo e pistolas, pouco pode fazer.
De um lado, 15 homens, em três carros, armados com fuzis, metralhadoras e escopetas. Do outro, três policiais munidos com pistolas. Na madrugada de ontem, bandidos sitiaram a cidade de Valente, no Nordeste do estado, e explodiram duas agências bancárias — a do Banco do Brasil e a do Bradesco. 

Na fuga, a quadrilha trocou tiros com duas guarnições da Polícia Militar da região de Serrinha, que atenderam ao pedido de reforço dos policiais da cidade.  Foram cerca de 15 minutos de confronto, mas ninguém foi preso. 

A pouco mais de 200 km dali, quase no mesmo horário, uma outra agência foi estourada, após oito homens invadirem a cidade de São Felipe armados com fuzis. Na hora, a delegacia estava fechada e os dois PMs de plantão tinham ido atender uma ocorrência de assalto na zona rural. 

A rotina é essa no interior do estado, onde quadrilhas aproveitam a segurança precária para deixar cidades inteiras em pânico e, muitas vezes, fazer moradores de escudos humanos. Só até ontem, foram 103 ocorrências de arrombamentos, explosões, assaltos e tentativas. Dessas, 19 foram em Salvador. Os dados são do Sindicato dos Bancários do estado.
Recuo
A diferença de armamentos obriga muitas vezes os policiais a recuar. “O armamento dessa quadrilha é de guerra... metralhadora e fuzis que furam motores de carro, poste de concreto e  carro como papel”, declarou o delegado Flávio Augusto Góes, coordenador da 2ª Coordenadoria de Polícia do Interior (Coorpin) em Alagoinhas, que cobre a região de Conde, onde, no dia
 2 deste mês, 16 bandidos fortemente armados invadiram a cidade, atiraram até contra a delegacia, assaltaram um banco e, na fuga, ainda amarraram reféns nos capôs e janelas dos carros. Enquanto isso, o delegado, seu escrivão e dois agentes, que estavam na delegacia, nada puderam fazer. 

A técnica administrativa Ione Santos Souza, 58, moradora de Conde, está até hoje aterrorizada. “Ave Maria! Sou vizinha da mãe do menino que foi levado no carro branco.  Foi malvadeza demais. Foi tiro! A praça é enorme, eles fizeram uma roda, colocaram o pessoal que estava no banco, deram tiro, pá pá, eu com o terço na mão, rezando. Ela (a mãe do rapaz feito refém) tá assustada, nervosa, não tem dormido”, disse Ione.

Também moradora de Conde, a aposentada Célia Araújo de Souza, 66, é mãe de um dos seguranças reféns do caso do Conde. “Ele estava trabalhando quando o pessoal chegou. Tinham arma para um batalhão, mais do que a polícia normalmente tem. Aqui são poucos (policiais). Eles (os bandidos) vêm é com fuzil e metralhadora, tudo arma forte”, concluiu. 

Sem opção
No dia 12 de fevereiro, um grupo com cerca de 20 homens explodiu  uma agência do Banco do Brasil, em Utinga, na Chapada Diamantina. Os criminosos utilizaram explosivos em excesso na tentativa de abrir o cofre da agência, e o dinheiro queimou na explosão. 

Divididos em cinco veículos, os ladrões se  espalharam pela cidade e abriram fogo contra a base da Companhia de Ações Especiais do Semiárido (Caesa) da PM. O efetivo de policiais civis era (e ainda é) de dois agentes e um delegado.  “A gente fica impotente numa situação dessas. Nessas condições, a polícia infinitamente inferior”, declarou um dos agente da unidade.

Na Caesa, havia apenas quatro PMs. “Eles não saíram porque sabiam que podiam morrer. Como vão pra cima deles em menor número e de pistolas?”, questionou um tenente do 2º Pelotão da 2ª Companhia Independente de Rui Barbosa,  que atende Utinga.

A aposentada Edinalva Santos, 63, disse que a situação deixou a cidade em pânico. “A gente continua com aquele suspense. Qualquer coisa que a gente vê, já parece que vai ser outro (assalto). Eles já vêm preparados mesmo para amedrontar a população”, disse. 

O Sindicato dos Policiais Civis da Bahia questiona a quantidade de efetivo no interior do estado. “Um modelo falido de segurança pública”, disse o presidente do Sindpoc, Marcos de Oliveira Maurício. 

Em resposta aos ataques, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) criou há três meses  a Coordenação de Repressão a Roubos a Instituições Financeiras (Crif), que prendeu, nesse período, 35 bandidos.

Funcionários

As ações das quadrilhas têm provocado pavor  também a  funcionários dos bancos.  “Os bancários estão amedrontados com a possibilidade de trabalhar no interior, onde a quantidade de policiamento é menor, além da facilidade de rotas de fuga para quadrilhas”, declarou Augusto Vasconcelos, presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia.

“As famílias são usadas para forçar os gerentes para abrir os cofres da cidade. Só que não basta a senha do gerente, pois o cofre tem um temporizador, que só abre em um determinado horário”, declarou. Segundo ele, os bancos investem pouco em segurança. “Investiram, em 2013, 5% do lucro na área de segurança. Em 2014, ampliaram 6,5%. Contudo, 90% são destinados para proteção das transações na internet”, disse. A Febraban informou que investe R$ 9 bilhões anuais em segurança. Colaborou Thais Borges.

Grupo especial prendeu 35 bandidos em 3 meses
Criada há três meses, a Coordenação de Repressão a Roubos  a Instituições Financeiras (Crif), unidade do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), já prendeu 35 bandidos ligados a ataques a instituições financeiras. “Acreditamos que avançamos em algumas áreas, inclusive, em Salvador. Algumas quadrilhas foram desarticuladas. Temos 35 pessoas presas, com diversas modalidades de roubo a bancos, algumas de outros estados”, declarou o delegado Maurício Moradillo. 

O delegado citou as dificuldades no trabalho das investigações. “Existem mais quadrilhas a ser presas. É um trabalho de muita  paciência. A polícia tem que antecipar os passos, antever as ações. A Bahia passa por uma situação complicada, roubos a bancos a quase todos os dias, o departamento está preocupado”, afirmou. “Temos equipes em Vitória da Conquista, Ilhéus e Feira de Santana, sem falar com as equipes de Salvador, que se deslocam com frequência para o interior. Essas equipes contam com delegados, investigadores e escrivães”, enumerou. 

Segundo o delegado, a maioria dos ataques acontece em um período específico. “Na maioria das vezes, essas ações acontecem quando há movimentação dos caixas eletrônicos, quando aposentados, pensionistas e funcionários públicos recebem dinheiro, no período 28 a 6, é um momento crítico ... só de uma quadrilha, desvendamos 124 roubos de banco na Bahia, foram apreendidos explosivos, armamentos, coletes à prova de balas”, disse o delegado.

Entre os casos desvendados este ano, está a prisão de sete integrantes de uma quadrilha especializada em assalto a banco, que teria sido  responsável pelos ataques em Barro Alto (em 6 de março/2015) e Andorinha, em 1º de maio de 2015.

Febraban investe R$ 9 bilhões por ano em segurança
A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), por meio de comunicado, disse que os bancos brasileiros estão constantemente preocupados com a segurança de seus clientes e funcionários. Segundo a Febraban, com  investimentos de cerca de R$ 9 bilhões por ano em segurança, os bancos adotaram, ao longo de uma década, uma série de medidas preventivas para contribuir com a redução dos assaltos. 

Instalaram cofres com dispositivo de tempo, circuitos fechados de televisão, sistemas de detecção e de monitoramento, alarme etc. Os bancos também reduziram o volume de dinheiro disponível nas agências e incentivam a população a usar os canais eletrônicos para realizar operações bancárias. 

O resultado desses investimentos é a queda no número de assaltos. Em 2014, segundo a Febraban, houve 395 assaltos a bancos em todo o país, ante 449 de 2013. Em 2000, foram 1.903 assaltos e tentativas de assaltos. 

A Febraban aconselha que o cliente evite fazer saque de somas elevadas. Em 2014, as despesas e investimentos em tecnologia pelos bancos foram de R$ 21,5 bilhões — o que também é considerado segurança. Canais como internet banking e mobile banking assumiram a condição de mais utilizados para transações bancárias, respondendo por 50% de todas as transações financeiras no país. 

As instituições financeiras contam ainda com 68 mil vigilantes profissionais que ficam posicionados em 23 mil agências bancárias - uma média de três profissionais por agência bancária.

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