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segunda-feira, 23 de março de 2015

EXCLUSIVA

 Reflexos de um entendimento, por Raul Monteiro

Foto: Carla Ornelas
Governador Rui Costa (PT) e o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM)
Consta que partiu do governador Rui Costa (PT) a iniciativa de chamar o prefeito ACM Neto (DEM) para uma conversa a fim de distensionar uma relação que começou abalada em decorrência da campanha estadual, quando o gestor municipal foi o principal articulador da candidatura adversária do democrata Paulo Souto, na qual mergulhou de cabeça. Rui andaria agastado com um conjunto de posições, segundo seus assessores próximos, assumidas por auxiliares de Neto que vinham impedindo o destravamento da ampliação do metrô, na Avenida Paralela, e dificultando um projeto que possui para a revitalização do Centro Histórico.
Considerado um dos maiores amigos do prefeito fora e dentro da administração, Sylvio Pinheiro, indicado por ele para a poderosa Sucom (secretaria municipal de Urbanismo), era visto, no governo, como a fonte dos problemas da gestão estadual no relacionamento com a Prefeitura. Claro que, na ótica dos assessores do governador, os óbices criados por Pinheiro não tinham motivação pessoal, mas eram fruto de uma combinação prévia com o prefeito. Fato é que, deduzindo que os obstáculos tinham um significado politico e estavam sendo deliberadamente criados, Rui tomou a iniciativa de convidar Neto para um encontro e foi atendido.
O resultado é um primeiro acordo amplo entre Estado e Prefeitura cujo maior beneficiário, desde que os compromissos assumidos publicamente por governador e prefeito sejam cumpridos, será a população de Salvador. Nele, se incluem desde o atendimento a exigências para o andamento das obras do metrô, como os alvarás que precisam ser concedidos pelo município, até o avanço das tratativas relativas ao VLT e a disponibilização de áreas, pelo governo estadual, para a construção de creches pela Prefeitura. O ingresso do Centro Histórico de Salvador na pauta discutida por ambos é, no entanto, a maior novidade.
Aliás, teria surpreendido a equipe do prefeito o interesse de Rui Costa pelo bairro, cuja obra de revitalização foi inciada ainda nos governos carlistas, nos anos 90, iniciativa que teria tido grande impacto estético local e no turismo baiano, mas que seria depois completamente abandonada nos governos petistas de Jaques Wagner, que se dedicou, nas oportunidades que teve, a tentar reescrever a história da Bahia sem a figura de ACM. Hoje, o prefeito reivindica o direito de estar à frente do processo, o que vinha fazendo com que técnicos de ambas as instâncias governamentais estivessem batendo cabeça em relação ao empreendimento.
Revelando uma visão muito mais atual sobre o papel do Estado referente à área que seu antecessor, o governador está disposto a ajudar na transformação do bairro, cujo desinteresse a que foi relegado deve ter gerado um prejuízo, em termos de valores, muito maior do que o que foi investido na sua recuperação, inclusive, com dinheiro de empréstimos internacionais. Sem alterar as evidências de que lideram projetos políticos muito distintos, a possibilidade de entendimento entre Rui e Neto do ponto de vista administrativo é fundamental e bem-vinda para a cidade e o Estado, mostrando, no caso do governador, que o PT baiano vive uma arejamento que não é só da boca para fora, como ocorreu em passado recente.
* Artigo publicado originalmente na Tribuna da Bahia

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